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JUNG E PSICOTERAPIA ON-LINE, UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL!

JUNG E PSICOTERAPIA ON-LINE, UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL!

Desde que comecei a atender on-line a pergunta que mais escuto de colegas e pacientes é: “terapia on-line funciona mesmo?”. A resposta é: DEPENDE. Ela “funciona” quando é realizada por um profissional treinado nesta modalidade de atendimentos.

A fundamentação teórica para esta resposta pode ser facilmente encontrada nas centenas de pesquisas publicadas nas últimas décadas sobre o tema. No entanto, a maioria das pesquisas foram embasadas na linha teórica comportamental, e em seguida pela psicanálise e gestalt, linhas que em algum momento já fizeram parte de minha formação como psicóloga clínica, mas que não esgotam a fundamentação de meu trabalho on-line. Então, gostaria de fazer uma breve apresentação de componentes da teoria junguiana que embasam a sua utilização no ambiente virtual.

Para isso, vamos começar definindo um importante termo, a aliança terapêutica. Sabemos que um dos principais elementos que validam um processo terapêutico é a aliança terapêutica. Em 1936, o psicólogo estadunidense Saul Rosenzweig concluiu que o que fundamenta a eficácia do processo psicoterápico em qualquer orientação teórica é a presença da aliança terapêutica. A aliança terapêutica pode ser definida como a ligação colaborativa e afetiva entre o psicoterapeuta e seu paciente e inclui elementos como empatia, happort, acolhimento e expectativas do profissional e do paciente. (Siqueira, 2018, p. 79).

Em 2014 as pesquisadoras australianas Susan Simpson e Corinne Reid realizaram uma revisão bibliográfica embasada em 23 artigos que se dispunham a mensurar e avaliar a aliança terapêutica em psicoterapias realizadas por videoconferência. O resultado da pesquisa apontou que nesta modalidade de psicoterapia:

  • A aliança terapêutica estabelecida entre profissional e paciente é equivalente a que ocorre em psicoterapias tradicionais;
  • Os 23 ensaios clínicos apresentaram escores de aliança terapêutica de moderados a fortes (Inventário de Aliança Terapêutica), sendo que a maioria apresentou este escore do início ao fim do tratamento.

Portanto, estes ensaios clínicos demonstraram que a videoconferência pode, de fato, auxiliar o psicoterapeuta a transmitir uma sensação de acolhimento, alcançar conteúdos emocionais profundos e construir uma forte ligação emocional com os pacientes (Siqueira, 2018, p. 81).

Esses estudos foram realizados nos EUA, Canadá, Escócia, Austrália e Inglaterra. Mas também temos um estudo recente realizado no Brasil com o objetivo de avaliar a existência da aliança terapêutica e a eficácia da videoconferência a partir de um referencial teórico junguiano.

Com este objetivo, Rodrigues (2014) estuda o caso de 5 mulheres que se submeteram a psicoterapia on-line síncrona por videoconferência utilizando o Questionário de Avaliação de Sessão (Session Evaluation Questionnaire – SEQ) que avalia, a cada sessão, as dimensões profundidade, suavidade, positividade e mobilização e, por fim, o Inventário de Aliança Terapêutica (Working Alliance Inventory -WAI) analisa a aliança terapêutica e seus componentes (foco na tarefa, congruência com objetivos e percepção de vínculo).

Rodrigues (2014) concluiu que aliança terapêutica e seus componentes se estabeleceram nos cinco casos e mantiveram-se ao longo do processo. A avaliação qualitativa do processo terapêutico como um todo permitiu concluir que a construção da relação terapêutica em atendimentos online síncronos é muito semelhante à presencial, tanto em suas vantagens quanto em seus desafios.

A autora se vale das palavras de Carl Gustav Jung para discorrer sobre a relação terapêutica sob nossa ótica, “Para a Psicologia Junguiana, a relação terapêutica é um encontro de dois sistemas psíquicos que interagem energética e reciprocamente um sobre o outro. É por meio da abertura propiciada pela relação terapêutica que se dá a possibilidades de transformação nos rígidos padrões de funcionamento da personalidade neurótica. Isto exige escuta isenta de ideias preconcebidas para que o terapeuta consiga acolher as manifestações do paciente e servir-lhe de continente, de modo a que se processe a investigação e o relaxamento dos traços neuróticos que limitam o paciente” (Jung, citado por Rodrigues, 2014 p. 69).

Ao longo de sua tese, ela constata que durante os atendimentos foram trabalhados de forma terapêutica:  aspectos antes inconscientes para os pacientes, o complexo materno e paterno e a repercussão deles nas dinâmicas relacionais de alguns pacientes, a possibilidade de integração da sombra, assim como a ampliação de consciência sobre dinâmicas psíquicas. Todos esses aspectos são igualmente trabalhados durante os atendimentos presenciais, o que sustenta a eficácia da utilização de recursos terapêuticos com referencial junguiano no ambiente virtual.

O mesmo venho observando nos últimos anos através da interação com meus pacientes no ambiente virtual. E acredito que essa relação terapêutica só pode ser construída se os atendimentos forem realizados por um profissional capacitado, consciente das suas possibilidades e limitações profissionais.

Então respondendo aos que me perguntam se a psicoterapia junguinana on-line funciona, digo que depende. Já que não basta fazermos uma mera transposição do manejo e das técnicas clínicas para o ambiente on-line. Não basta utilizarmos o mesmo enquadre, nem tentarmos construir um setting terapêutico “clonado” do setting presencial. E tampouco basta limitarmos as variáveis da transferência e contratransferência às mesmas variáveis de um trabalho presencial.

Dependendo de como a (o) profissional irá se preparar e se instrumentalizar para a psicoterapia síncrona on-line, este trabalho terá a mesma eficácia de um atendimento presencial.

 

Tatiana Festi – Psicóloga Clínica com 13 anos de atuação. Graduada pela Universidade Estadual de Maringá e pós-graduada em Psicologia Junguiana. Além de sua experiência pessoal em morar no exterior, a autora  se especializa em questões clínicas referentes a diferenças culturais, residentes no exterior, expatriados e relacionamentos interculturais. Há alguns anos se dedica exclusivamente à psicoterapia on line.

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REFERÊNCIAS

Siqueira, C. C. A.; Russo, N. M. Psicoterapia on-line: ética, segurança e evidências científicas sobre práticas clínicas mediadas por tecnologias. São Paulo: Zagodoni, 2018.

Rodrigues, C. G. Aliança terapêutica na psicoterapia breve online.

 

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